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Inglaterra x Argentina
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A rivalidade histórica entre Inglaterra e Argentina

As seleções se enfrentam em campo pela semifinal da Copa do Mundo, mas a rivalidade vai além das quatro linhas

Quando Inglaterra e Argentina entrarem em campo pela semifinal da Copa do Mundo de 2026, será apenas mais um capítulo da histórica rivalidade entre os dois países, que remonta ao período colonial e atravessa séculos de disputas políticas, territoriais e esportivas.

A origem da rivalidade

As tensões entre os dois países remontam ao período colonial. Enquanto a Argentina era colonizada pela Espanha em definitivo a parti de 1553, com a fundação de Santiago del Estero, cidade mais antiga do país, o Reino Unido ampliava sua influência marítima e comercial na região do Rio da Prata, rio que margea a cidade de Buenos Aires.

Nota do editor: O que vem a seguir é um resumo dos principais acontecimentos até os dias atuais, com o objetivo de contextualizar a rivalidade entre os dois países.

Os ingleses ocuparam ilhas inabitadas próximas a região, sendo uma delas, as Ilhas Falkland (ou Malvinas), o ponto principal de disputa entre espanhóis, depois argentinos, e o Reino Unido.

Ilhas Falkland ou Malvinas

Descobertas no século XVI, as ilhas foram exploradas pela primeira vez pelo capitão inglês John Strong, em 1690. Permaneceram desabitadas até 1764, quando os franceses fundaram o povoado de Port Louis. Um ano depois, os britânicos estabeleceram Port Egmont em outra ilha do arquipélago.

Em 1766, a França transferiu Port Louis para a Espanha, que o rebatizou como Puerto Soledad. Em 1770, os espanhóis ocuparam Port Egmont, devolvido aos britânicos no ano seguinte.

Em 1774, os ingleses deixaram as ilhas, mas instalaram uma placa afirmando que as Falklands pertenciam ao rei George III. Puerto Soledad permaneceu como o único assentamento e funcionou como colônia penal até 1806, quando os espanhóis também abandonaram a região devido às invasões britânicas ao Rio da Prata, tentativas falhadas de tomar a região para o Reino Unido.

Nas décadas seguintes, o arquipélago passou por um período de pouca governança, investimentos privados e até uma incursão estadunidense. Em 1833, o Reino Unido reassumiu o controle das ilhas, dando início à administração britânica que permanece até hoje e segue sendo contestada pela Argentina.

Tensões e a quase transferência

Durante os 130 anos seguintes, a Argentina fez diversas reivindicações diplomáticas sobre o arquipélago, aumentando a tensão entre os dois países.

Após uma resolução da ONU, em 1965, Reino Unido e Argentina iniciaram negociações sobre uma possível transferência de soberania.

Em 1971, um acordo foi firmado para a transferência, com a Argentina construindo uma base aérea nas ilhas. Entretanto, os moradores locais rejeitaram a ideia de deixar de fazer parte do Reino Unido e pressionaram o Parlamento britânico, impedindo o avanço das negociações.

Novamente discussões sobre uma transferência foram feitas em 1977 até 1981, dessa vez sem sucesso, o que acabou escalando a disputa.

Guerra das Malvinas (1982)

Em abril de 1982 a Argentina, sob ditadura militar, invadiu as Ilhas Falkland, além das ilhas South George e South Sandwich, com o objetivo de retomar o controle dos arquipélagos. Aproximadamente 13 mil soldados argentinos participaram da operação.

O Reino Unido respondeu enviando cerca de 7,5 mil militares e, em junho daquele ano, retomou o controle das ilhas. Após o conflito, os britânicos ampliaram sua presença militar na região, construindo uma base permanente e fortalecendo a ocupação.

A derrota provocou grandes protestos na Argentina e enfraqueceu decisivamente a junta militar, que deixou o poder em 1983, durante o processo de redemocratização do país.

Maradona e a vingança argentina

Mas e o futebol? Calma que chegamos lá. Quatro anos depois, Argentina e Inglaterra voltaram a se encontrar, desta vez nas quartas de final da Copa do Mundo de 1986.

Antes da partida, Diego Maradona e o técnico Carlos Bilardo declararam aos jornalistas que o jogo era apenas sobre o futebol e que não havia o sentimento de revanche pela guerra, principalmente por causa dos mortos e das feridas causadas na sociedade argentina. Mentiram. O que aconteceu em campo mostrou que a carga emocional era muito maior.

La Mano de Díos

Aos seis minutos do segundo tempo, Maradona fez, o que é até hoje, um dos gols mais emblemáticos e polêmicos do futebol mundial. Após uma bola rebatida na área, o argentino tocou deliberadamente com a mão antes da chegada do goleiro Peter Shilton. O árbitro e o assistente não perceberam a irregularidade, os ingleses sim, mas as reclamações foram em vão. Argentina 1 a 0.

Foi como se tivesse roubado a carteira de um inglês, disse Maradona.

O Gol do Século

Enquanto o lance ainda ecoava no estádio, Maradona mostrou sua genialidade mais uma vez. Quatro minutos depois, o meia argentino pegou a bola no ainda na sua defesa, driblou metade do time inglês e parou no gol. Um gol de gênio. Argentina 2 a 0.

A Inglaterra reclamou de uma falta, existente, no início da jogada, mas sem sucesso. Os ingleses ainda descontaram com Lineker nos minutos finais, mas foram eliminados do Mundial, que foi vencido pelos argentinos.

O narrador uruguaio Víctor Hugo Morales eternizou o lance com uma narração histórica:

Sempre Maradona! Gênio! Gênio! Gênio!... tá-tá-tá-tá... Goooool! Me perdoem, quero chorar! Deus santo! Viva o futebol! [...] Serpente cósmica, de qual planeta você veio?

Os outros confrontos

Argentina e Inglaterra voltaram a se enfrentar outras duas vezes em Mundiais. Em 1998, pelas oitavas de final, os argentinos eliminaram os ingleses nos pênaltis após empate por 2 a 2, em uma partida marcada pela expulsão de David Beckham.

Já em 2002, os ingleses conseguiram sua "revanche" ao vencer por 1 a 0 na fase de grupos com gol de Beckham, resultado que contribuiu para a eliminação precoce da Argentina.

A Semifinal

Fora de campo, as Ilhas Falkland continuam sendo uma disputa. Desde 1994 a Argentina tem em sua constituição que as Malvinas fazem parte de seu território. O atual presidente Javier Milei também voltou a defender negociações bilaterais sobre a soberania das ilhas.

Do outro lado, em um referendo realizado em 2013, 99,8% dos 1650 moradores do arquipélago votaram pela permanência sob administração britânica. Apenas três votos foram contrários.

Com toda essa bagagem histórica, Inglaterra e Argentina volta a se ver em um mata-mata de Copa do Mundo. Mais uma vez os argentinos tem um camisa 10 genial do seu lado, enquanto os ingleses, liderados por Kane e Bellingham, querem voltar a uma final de Copa após 60 anos e escrever um novo capítulo em uma das maiores rivalidades da história do futebol.

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