Apenas três pilotos brasileiros conquistaram o título do mundial de pilotos
Em 76 anos de Fórmula 1, um total de 35 pilotos conseguiu conquistar o título mundial da categoria. Desses, apenas três são brasileiros, e suas conquistas impulsionaram o automobilismo no país, transformando-o em uma paixão nacional.
Seguindo os passos de Chico Landi, o brasileiro pioneiro na categoria, Emerson Fittipaldi estreou na principal modalidade do automobilismo mundial pela Lotus em 1970. No seu ano de estreia, venceu o GP dos Estados Unidos, em Watkins Glen. O resultado, além de ser a primeira vitória brasileira na F1, garantiu o título de construtores para a equipe e ajudou seu companheiro Jochen Rindt (que havia falecido em Monza) a assegurar o único título póstumo de pilotos.
O primeiro título mundial de Fittipaldi veio em 1972. Com cinco vitórias em 12 corridas a bordo da Lotus 72D (que ficou ainda mais famosa graças à música de Zé Roberto), ele se consagrou como o primeiro campeão mundial brasileiro e o mais jovem da história até então, com 25 anos, oito meses e 29 dias (recorde que permaneceu até 2005, quando Fernando Alonso conquistou seu primeiro título).
Uma curiosidade do seu primeiro campeonato é que seu pai, Wilson Fittipaldi, conhecido como "O Barão", narrou sua vitória no GP da Itália, que garantiu a conquista ao brasileiro.
Graças ao seu sucesso, o Brasil recebeu o seu primeiro Grande Prêmio em 1973, com vitória de Emerson, ainda pela Lotus 72D. Fittipaldi voltou a vencer no Brasil em 1974, agora pela McLaren, somando mais duas vitórias e consagrando-se bicampeão mundial no final daquela temporada.
Após o vice-campeonato em 1975 (ficando atrás de Niki Lauda), Emerson transferiu-se para a Copersucar-Fittipaldi, a primeira equipe brasileira na Fórmula 1, fundada por ele e seu irmão, Wilson. A escuderia havia estreado em 1975, mas foi a chegada de Emerson em 1976 que chamou ainda mais a atenção, já que o bicampeão deixava a competitiva McLaren, que contratou o britânico James Hunt para o seu lugar.
A Escuderia Fittipaldi competiu entre 1975 e 1982, sem conseguir vencer nenhum GP, tendo como melhor resultado um segundo lugar de Emerson no GP do Brasil de 1978. A equipe serviu como plataforma para outros brasileiros na categoria, como o próprio Wilson Fittipaldi, além de Ingo Hoffmann, Alex Dias Ribeiro e Chico Serra. Emerson encerrou sua carreira na Fórmula 1 correndo pela própria equipe ao fim da temporada de 1980.
Outros dois grandes nomes passaram pela escuderia brasileira: Keke Rosberg, que recebeu sua primeira oportunidade na Fórmula 1 na equipe e viria a ser campeão mundial em 1982 pela Williams; e Adrian Newey, o projetista multicampeão com Williams, McLaren e Red Bull, que teve ali o seu primeiro trabalho na categoria.
Títulos Mundiais | 2 (1972 e 1974) |
Corridas (largadas) | 149 (144) |
Vitórias | 14 |
Pole positions | 6 |
Pódios | 35 |
Volta mais rápida | 6 |
Com o sucesso de Emerson, cada vez mais brasileiros passaram a buscar um lugar na Fórmula 1. Piquet fez sua estreia em 1978 pela Ensign, no GP da Alemanha, e, em 1979, disputou sua primeira temporada completa pilotando pela Brabham.
Foi pela equipe inglesa que Nelson conquistou sua primeira vitória, em 1980, no GP de Long Beach (Estados Unidos), terminando o campeonato com o vice-campeonato. No ano seguinte, venceu três das 15 provas e assegurou o seu primeiro título mundial.
Em 1983, mais três vitórias e cinco pódios foram suficientes para Piquet conquistar o bicampeonato, também pela Brabham. O brasileiro ainda permaneceu na equipe por mais duas temporadas antes de se transferir para a Williams, em 1986.
Na Williams, em 1987, Piquet viveu o seu melhor ano. Em 16 etapas, o brasileiro venceu três e subiu ao pódio em outras oito ocasiões (sendo sete delas na segunda posição), sagrando-se o primeiro tricampeão mundial do país, ao superar seu companheiro de equipe, Nigel Mansell, e um compatriota que viria a ser campeão no ano seguinte.
Nos anos seguintes, Piquet pilotou pela Lotus (1988 e 1989) e pela Benetton (1990 e 1991), onde conquistou mais três vitórias antes de se aposentar ao final da temporada de 1991.
Nelson Piquet é até hoje considerado como um dos pilotos mais completos a terem passado pela categoria. Sua paixão por mecânica, que levou ele ao automobilismo, permitiu que tivesse um conhecimento incrível sobre o acerto do carro para as corridas, além da sua forma controlada de pilotar, que extraia o máximo da performance.
Títulos Mundiais | 3 (1981, 1983 e 1987) |
Corridas (largadas) | 208 (204) |
Vitórias | 23 |
Pole positions | 24 |
Pódios | 60 |
Volta mais rápida | 23 |
Ayrton Senna é considerado por muitos como o maior piloto da história. Nos seus 10 anos na categoria, o brasileiro bateu recordes, foi tricampeão mundial, protagonizou uma das maiores rivalidades do esporte e conquistou um status de lenda.
Sua estreia aconteceu em 1984, pela Toleman. Já na sua sexta corrida, em Mônaco, o brasileiro, debaixo de uma chuva torrencial, desfilou na pista com um carro inferior ao de seus adversários, como a Williams de Keke Rosberg e a McLaren de Niki Lauda. Senna teria vencido se a prova não tivesse sido interrompida após os pedidos de Alain Prost, que liderava. A corrida foi encerrada com 31 voltas, e apenas metade dos pontos foi atribuída. Prost viria a perder o campeonato por meio ponto, justamente por conta dessa prova.
Senna viria a vencer seis vezes no Principado, tornando-se o recordista da pista e o "Rei de Mônaco".
A primeira vitória de Senna na F1 não demorou a acontecer. Em 1985, agora pela Lotus, Ayrton venceu em Portugal na segunda corrida da temporada, em mais uma aula de pilotagem na chuva, demonstrando enorme habilidade para um novato. A etapa de Estoril marcou também a primeira das 65 poles de Senna, recorde que seria mantido até Michael Schumacher superá-lo em 2006. O brasileiro ainda venceria na Bélgica naquele ano, terminando o mundial na quarta posição.
O resultado se repetiu em 1986, quando venceu mais duas corridas, com direito a um segundo lugar e à dobradinha brasileira em Interlagos ao lado de Nelson Piquet. Outras duas vitórias vieram em 1987, ainda pela Lotus, levando o brasileiro ao terceiro lugar no campeonato.
A grande mudança ocorreu em 1988, quando Senna chegou à McLaren para fazer dupla com Alain Prost. O francês, bicampeão na época, buscava o seu terceiro título em uma equipe que havia vencido três dos últimos quatro campeonatos.
A bordo da lendária McLaren MP4/4, os dois pilotos ganharam 15 das 16 corridas, transformando o modelo no mais dominante da história da categoria. Senna venceu oito provas e cravou 13 pole positions, conquistando o seu primeiro título mundial e criando com Prost uma rivalidade que marcaria a Fórmula 1 para sempre.
Em 1989, com ambos novamente na disputa pelo título, Senna chegou à penúltima corrida, no Japão, precisando vencer Prost para se manter vivo na briga. Ao tentar ultrapassar o francês na chicane ao final da 47ª volta, Senna viu o "Professor" bater em seu carro de propósito. Com ambos fora da prova, Prost seria o campeão. O francês saiu do carro, enquanto Senna pediu para ser empurrado pelos comissários, voltou à pista, trocou o bico do carro e foi à caça de Alessandro Nannini, que herdara a liderança com o acidente.
Senna ultrapassou, venceu e manteve a disputa em aberto. No entanto, a figura de Jean-Marie Balestre entrou em cena. Francês como Prost, Balestre desqualificou Senna sob a alegação de que ele não contornou a chicane após o incidente. Com isso, Nannini herdou a vitória e Prost garantiu o tricampeonato.
Em 1990, veio a revanche. Agora com Prost na Ferrari, os dois chegaram novamente a Suzuka disputando o título. Desta vez, a vantagem era do brasileiro, que a utilizou logo na primeira curva. Largando lado a lado, Senna e Prost dividiram o traçado; sem aliviar, o brasileiro manteve a linha e bateu no rival, tirando ambos da prova e conquistando o bicampeonato mundial.
Em 1991, tendo Nigel Mansell como principal oponente, Senna venceu sete das 16 provas e consagrou-se tricampeão. Foi também em 1991 que ele finalmente conquistou a sua primeira vitória no GP do Brasil, em Interlagos. Pilotando com o câmbio travado apenas na sexta marcha nas voltas finais, o brasileiro levou a McLaren "para casa" no limite da superação.
Após a bandeirada, os gritos de êxtase misturavam-se aos de dor pelo esforço físico extremo. Senna precisou de auxílio para deixar o cockpit e, no pódio, visivelmente exausto, ergueu a bandeira do Brasil e o troféu em uma das imagens mais marcantes da história da categoria.
Em 1992 e 1993, apesar de vitórias isoladas, Senna viu a dominância da Williams, que revolucionou a categoria com inovações tecnológicas como a suspensão ativa. Mansell e Prost conquistaram os títulos naquelas temporadas, respectivamente. Com a aposentadoria de Prost no final de 1993, o caminho ficou livre para Senna assinar com a Williams para 1994.
Contudo, um novo regulamento baniu grande parte das ajudas eletrônicas para nivelar o grid, resultando em carros difíceis de guiar e altamente instáveis.
Após duas poles e dois abandonos, Senna chegou a Ímola pressionado, já que Michael Schumacher e a Benetton lideravam o campeonato com 100% de aproveitamento.
No entanto, o fim de semana transformou-se em tragédia. Na sexta-feira, Rubens Barrichello sofreu um forte acidente, fraturando o nariz e engolindo a língua. O susto abalou Senna, que foi imediatamente ao centro médico verificar o compatriota.
No sábado, a tragédia se consumou com a morte do austríaco Roland Ratzenberger, que bateu violentamente na curva Villeneuve após perder a asa dianteira de seu carro. Senna assistiu a tudo chocado pelos monitores dos boxes. Ratzenberger foi levado de helicóptero ao hospital, mas não resistiu. A notícia veio como um choque para todos no circuito. Era o segundo grave acidente em dois dias, dessa vez custando uma vida.
Sid Watkins, médico oficial da F1 e amigo de Ayrton, sugeriu que o brasileiro não competisse no domingo, mas Senna recusou.
No dia da corrida, Senna alinhou na pole position com um semblante extremamente introspectivo. Logo na largada, Pedro Lamy atingiu a Tyrrell paralisada de JJ Lehto, espalhando destroços que feriram espectadores.
O safety car foi acionado e permaneceu na pista até a sétima volta. Na relargada, com Senna na liderança seguido por Schumacher, o carro do brasileiro passou reto na curva Tamburello a cerca de 300 km/h, chocando-se violentamente contra o muro de concreto. A batida custou a vida do tricampeão mundial em 1º de maio de 1994, aos 34 anos. Dentro de seu cockpit, foi encontrada uma bandeira da Áustria, que ele pretendia erguer em homenagem a Ratzenberger ao fim da prova.
Investigações posteriores apontaram que uma modificação na coluna de direção, feita para adequar o espaço interno do carro às mãos do piloto, rompeu-se. Além disso, a suspensão dianteira atingiu o capacete de Senna, que também bateu com a cabeça no muro da curva, causando lesões fatais.
O funeral de Ayrton Senna, em São Paulo, reuniu uma multidão com honras de chefe de Estado. As mortes de Senna e Ratzenberger deixaram um legado histórico de segurança na Fórmula 1, forçando mudanças estruturais que permitiram à categoria passar duas décadas sem um acidente fatal até o falecimento de Jules Bianchi, em 2014.
Títulos Mundiais | 3 (1988, 1990 e 1991) |
Corridas (largadas) | 162 (161) |
Vitórias | 41 |
Pole positions | 65 |
Pódios | 80 |
Volta mais rápida | 19 |