Draftado em 2018, o quarterback foi tido como um bust até dar a volta por cima e conseguir chegar à final da NFL nesta temporada
Um bust, no linguajar da NFL, é um jogador que é selecionado alto no draft que atrai grandes expectativas, mas não corresponde, falhando em se tornar um titular consistente e produtivo. Ao final de 2020, essa definição era atribuída a Sam Darnold, então quarterback do New York Jets.
Porém Darnold não deixou se abater. No seu scout report à epóca do draft, que destacava suas falhas e pontos fortes, uma coisa chamava a atenção: Sam Darnold não tem medo do fracasso.
O jogador se reinventou, passou por outros momentos difíceis, aprendeu com novos técnicos e ressurgiu na temporada passada. Seu momento atual no Seattle Seahawks não é um brilho passageiro, mas a consequência direta de alguém que não desistiu, mesmo diante das adversidades.
Darnold foi a terceira escolha geral do Draft de 2018. Vindo da USC, era a grande esperança para a equipe de Nova York, que não ia aos playoffs havia oito anos. Comandado por Todd Bowles, o Jets estava em rebuild e via em Darnold a chance de reestruturar a equipe a partir da posição mais importante do esporte.
A temporada de 2018 começou bem, com uma vitória por 48 a 17 contra o Detroit Lions, no Ford Field. O Jets iniciou o ano com campanha 3-3, mas uma sequência de seis derrotas levou a equipe a terminar 4-12 e na última posição da AFC Leste. Após o fim da temporada, Todd Bowles foi demitido, e Adam Gase foi contratado como novo head coach.
Em 2019, Darnold foi diagnosticado com mononucleose, o que o deixou fora de alguns jogos. Em seu retorno, fez seu melhor jogo até então pelo Jets, na vitória, a primeira da temporada, contra o Dallas Cowboys, por 24 a 22.
O adversário da semana seguinte era o New England Patriots, o mesmo deste domingo (8). Na época, rival de divisão e atual campeão, o Patriots possuía a melhor defesa da NFL e era comandado por Bill Belichick, que odiava (e era odiado) pelo Jets. O que se viu no Monday Night Football foi um show de horrores que assombraria Darnold por sua carreira.
I'm seeing ghosts
"Eu estou vendo fantasmas", disse Darnold ao seu coordenador ofensivo. O QB terminou o jogo com quatro interceptações e apenas 86 jardas passadas. Em campo, o Patriots venceu o Jets por 33 a 0. O momento, capturado pela ESPN, rapidamente virou meme.
Mesmo com o Jets terminando 7-9, após uma sequência de seis vitórias em oito jogos no final da temporada, o episódio apagou o momento de Darnold. Mais uma vez, a equipe ficou fora dos playoffs.
A evolução vista em 2019 não foi levada para 2020. O Jets começou 0-13 pela primeira vez na história da franquia e terminou 2-14, o pior recorde da franquia desde 1996. Ao fim da temporada, Adam Gase foi demitido, e Robert Saleh foi contratado como head coach. Com a chegada de uma nova comissão técnica e o desejo de começar do zero mais uma vez, o Jets decidiu trocar Darnold com o Carolina Panthers, marcando o fim da passagem do quarterback por Nova York.
A estreia de Darnold pelo Panthers foi justamente contra o Jets. Na semana 1 da temporada 2021, Carolina venceu Nova York em casa por 19 a 14. O Panthers chegou a iniciar a temporada com campanha 3–0, mas caiu para 4–5 até Darnold fraturar a escápula contra o Patriots, na derrota por 24 a 6.
Após se recuperar, Darnold dividiu snaps com Cam Newton e não conseguiu se firmar na equipe, terminando a temporada com campanha 4-7 como titular, enquanto o Panthers terminou 5-12.
Em 2022, Darnold foi nomeado como QB reserva, atrás de Baker Mayfield, também draftado em 2018 e trocado para Carolina. Darnold voltou à titularidade na semana 12 e terminou a temporada com campanha 4-2. Apesar disso, não teve seu contrato renovado e foi liberado pela franquia.
Darnold foi contratado pelo 49ers para ser o backup de Brock Purdy, atuando apenas uma partida. Com a vaga nos playoffs garantida, a franquia resolveu descansar Purdy e colocar Darnold contra o Los Angeles Rams, em jogo que terminou 21 a 20 para o Rams.
O 49ers chegaria à final contra o Kansas City Chiefs, onde foi derrotado por 25 a 22. Darnold foi dispensado ao fim da temporada, mas agradeceu pela oportunidade e, principalmente, pelos aprendizados com o HC Kyle Shanahan, que o ajudou a se reinventar na abordagem ao jogo.
Darnold foi contratado pelo Vikings em 2024 para competir o rookie J.J. McCarthy. Após a lesão do novato, que o tirou da temporada, Darnold assumiu a titularidade.
A expectativa na liga era que o Vikings, apesar de talentoso em várias posições, não brigaria pelos playoffs, e que Darnold apenas "taparia um buraco" até a próxima temporada. Porém a realidade, e Darnold, se mostraram diferentes.
O Vikings começou o ano com cinco vitórias seguidas, incluindo sobre 49ers e Jets. Após duas derrotas, Darnold e Minnesota emplacaram oito vitórias seguidas, brigando na última semana diretamente contra o Lions pela seed 1 da NFC. O confronto foi vencido por Detroit por 31 a 9, deixando o Vikings com campanha 14-3 e a seed 5 da conferência.
Na sua estreia nos playoffs, um resquício do Darnold do passado apareceu. Pressionado pelo Rams e com dificuldades de leitura, o QB sofreu nove sacks e teve um fumble retornado para touchdown, na derrota por 31 a 9.
Darnold bateu quase todos os seus recordes pessoais na temporada, mas isso não foi o suficiente para Minnesota mantê-lo, já que a franquia via McCarthy como o titular para o futuro.
Sem time, Darnold passou a ser cobiçado por muitas franquias após o sucesso em 2024 e, em março de 2025, assinou com o Seattle Seahawks por três anos, em um contrato de 100,5 milhões de dólares.
Liderados por Geno Smith, outro QB draftado pelo Jets, o Seahawks havia terminado a temporada de 2024 com um recorde de 10-7, fora dos playoffs. Mais uma vez cercado por expectativas, Darnold teria mais uma chance de provar que seu desempenho em 2024 não era sorte ou obra do acaso.
Recheado de talento, o Seahakws liderado por Darnold encerrou a temporada com um recorde 14-3 e como seed 1 da NFC. Darnold se juntou a Tom Brady como os únicos quarterbacks a vencerem 14 jogos em temporadas consecutivas.
Nos playoffs, dois rivais de divisão surgiram pelo caminho. Primeiro, o 49ers no Divisional Round, dominado por completo na vitória por 41 a 6. Depois, o Rams, na final de conferência.
Darnold fez valer sua conexão com o wide receiver Jaxon Smith-Njigba e lançou para 346 jardas e três touchdowns na vitória por 31 a 27, sua melhor atuação na carreira.
A maturidade demonstrada por Darnold e suas decisões sob pressão evidenciaram a evolução do quarterback. O título da NFC fez com que ele se tornasse o primeiro da classe de 2018 a chegar na final, antes de nomes como Josh Allen e Lamar Jackson, ambos vencedores de MVPs da temporada e considerados entre os melhores da liga.
Darnold provou que a avaliação feita à época do Draft de 2018 estava correta. O quarterback não teve medo do fracasso. Aprendeu. Aproveitou cada oportunidade desde a saída do Jets para evoluir e melhorar. Agora, chega para domingo (8) como um novo jogador.
Do outro lado está, talvez, seu último fantasma: o New England Patriots. O mesmo time que o fez "ver fantasmas" em 2019 e da lesão em 2021. Em quatro oportunidades, foram quatro derrotas, com apenas um touchdown e nove interceptações. A franquia de Boston tem assombrado Darnold.
Agora no jogo mais importante da sua carreira tem a chance da redenção: reescrever o passado e construir seu futuro como uma das melhores histórias da NFL.